sábado, 30 de janeiro de 2010

A-t E p t A

.....

Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...

Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.

Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.

Não sei o que eras.
Creio. Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...

Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?

Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.

Em que és [...] fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto

[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...

Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstrato
Que vai entre alma e alma...
Horas de inquieta calma

E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei...
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo...

Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que
Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?

Nós não sonhamos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos - tão sinceras...
Meu gesto - tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...

Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...


Amamo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.

Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde

Talvez sintas como eu
E não saibas senti-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobri-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...

Somos a nossa bruma...
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...

Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...

E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Que a força do medo que tenho
Não impeça de ver o que é anseio
Que a morte de tudo que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito...
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda,ainda que tristeza
Que o homem que amo
Seja para sempre amado,mesmo que distante...
Porque metade de mim é partida...
mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como precee nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas...
Como a única coisa que resta de um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que eu ouço...
mas a outra metade é o que calo.
Que essa vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço...

E essa tensão que me corrói por dentro,seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que penso,mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convivio comigo mesmo se torne ao menos suportável...

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso...
Que eu tenho dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui...
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria...
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais...
Porque metade de mim é abrigo...
mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta...
mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar.
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia,e a outra é canção.
Q ue a minha loucura seja perdoada...
Porque metade de mim é amore a outra metade...
também.
(oswaldo montenegro)

P.N

...
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,quem não ouve música,quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,repetindo todos os dias os mesmos trajetos,quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova corou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,quem prefere o negro sobre o brancoe os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoçõesjustamente as que resgatam o brilho dos olhos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz,quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

(Pablo Neruda)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Não te quero...

...

Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.

Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.


Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.

Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo..
(Pablo Neruda)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Às vezes é preciso...

Às vezes é preciso calar para entender melhor o que se passa em minha volta.
O silêncio coloca a mente em prudência;
Às vezes...
Calados somos superiores em evidência.

Para quem escrevo?

Para quem ecrevo?

Para o tempo parado
Para as nuvens no infinito,
Para o vento sossegado
Para um amor que está finito.